“O Rio Cheio – No Período da Cheia, o Sol Escaldante e o Tesão Borbulhando”
Eu estava queimando de sol e de vontade. A areia grudava nos pés, o vento trazia o sal, e a maré lambia a beira como quem convida. Foi quando vi ele: um homem de traços finos, corpo magro desenhado pelo sol, um jeito tímido que mordia o próprio lábio quando olhava pro mar. Parecia que carregava segredos no bolso da bermuda e silêncio nos ombros.Cruzei com ele duas vezes, só para ter certeza de que não era miragem. Na terceira, parei ao lado, ofereci água do meu squeeze e uma conversa despretensiosa. Ele sorriu curto — daqueles sorrisos que fazem a pele arrepiar por motivos que nem a gente entende direito — e agradeceu. O sal no canto da boca brilhava; a timidez, porém, não apagava a faísca no olhar.— Tá muito cheio aqui — eu disse, apontando os guarda-sóis coloridos, as crianças pulando as ondas, o apito do vendedor de picolé. — Ali nas pedras tem um cantinho mais silencioso. Quer ir?Ele assentiu com um “vamos” quase sussurrado. Fomos pela faixa de areia molhada, pés afundando, espuma fria batendo nos tornozelos. As pedras formavam um corredor, e ali o mar era um rio que se insinuava por entre fendas e poças, mais calmo, mais íntimo. O barulho da praia ficou para trás como um rádio distante.Quando paramos, o vento trouxe o cheiro de água doce misturada ao sal. Eu me aproximei, toquei o ombro dele — pele morna, úmida — e perguntei com os olhos se podia ir além. Ele respirou fundo, fechou as pálpebras por um instante e se deixou encostar. Meu peito encostou no dele e pude sentir o coração acelerar, como se cada batida fosse um passo para dentro de um lugar só nosso.Minhas mãos caminharam devagar, aprendendo o mapa do corpo dele: o caminho do trapézio ao pescoço, a linha que desce pela coluna, o abrigo entre as costelas. Ele retribuiu com dedos trêmulos no contorno da minha cintura, como quem experimenta um idioma novo e confia nas próprias sílabas. O primeiro beijo foi salgado, tímido, depois urgente; o segundo já veio cheio de silêncio entendido, como se tudo que a gente não disse na areia resolvesse se falar ali, encostado nas pedras.Entramos na água. O corpo arrepiou com o choque do frio e logo esquentou. A correnteza roçava nas pernas, o remanso nos aninhava pelo quadril, e o mundo reduziu-se ao som abafado do mar batendo ao longe, às respirações desencontradas, aos nossos nomes ditos rente ao ouvido. Eu o puxei para perto; ele veio inteiro, sem hesitar, como se estivesse esperando essa convocação há dias.A água nos envolveu até a cintura e o tempo ficou espesso, uma película que a gente rasgava com cada carícia. As mãos escorregavam pela pele lisa, a boca encontrava pele quente mesmo sob as gotinhas frias, os olhos buscavam aprovação e a recebiam em meio a sorrisos breves, mordidas leves e um “assim” quase dito sem voz. As pedras atrás davam firmeza às costas, os braços dele me seguravam com coragem de quem se descobriu no exato momento do toque.Havia algo de louco e de terno na forma como a gente se encaixou, como se a maré tivesse crescido só para nos cobrir. Meus dedos entrelaçados nos dele, minha testa colada à sua, e aquele ritmo que nasce quando dois corpos chegam ao mesmo verbo, ainda que sem palavra alguma. O mundo inteiro reduziu-se a temperatura, respiração, pele e intenção.Quando o clímax veio, foi como onda que arrebenta por dentro: sem aviso, total, inevitável. O corpo dele estremeceu nos meus braços; eu o abracei mais forte e deixei que o meu tremor respondesse ao dele, nossos olhos abertos, respirando alto, culpando o vento pela vertigem. Ficamos assim um instante que pareceu longo, o coração tentando achar o compasso, a água batendo de leve, nos lembrando que o mar existe.Saímos devagar para a pedra mais seca, onde o sol nos lambeu de novo e o sal secou na pele como um selo do momento. Ele riu, tímido como no começo, mas agora com uma confiança mansa no canto da boca. Eu passei o dedo pelo ombro dele, deixando um trilho de areia.— Você tremeu — ele disse, quase rindo de mim.— Você também — respondi, encarando o brilho nos olhos dele.Sentamos lado a lado, os pés ainda dentro d’água, e ficamos um tempo sem dizer nada. O silêncio não era mais vazio; era cheio de tudo. Ao longe, a praia retomava seus ruídos: o apito do picolé, a bola batendo, uma música perdida ao vento. Aqui, no nosso pequeno recorte entre pedras, o dia tinha outra temperatura.Quando nos levantamos, a maré já tinha subido um pouco. Voltamos pela faixa estreita, nossos ombros roçando de vez em quando, como se o corpo não quisesse desaprender a proximidade recém-descoberta. Na areia aberta, ele me olhou de lado, com aquele sorriso curto que já era um convite.— A gente se fala? — perguntou.— A gente se fala — respondi, e o eco da promessa ficou suave no peito, como um último gole de sol.Fiquei um pouco, vendo-o ir embora com passos leves, enquanto o mar lá atrás insistia em apagar nossas pegadas. Mas, por mais que a água tentasse, o que a gente viveu ali ficou gravado — no corpo, no sal, no calor do dia que não terminou, só mudou de lugar.
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