O corpo sabe antes da mente. Antes de qualquer palavra aprendida, foi o corpo que aprendeu a se expressar, se defender. Antes de qualquer conceito de perigo,foi Baixar Arquivo
O corpo sabe antes da mente. Antes de qualquer palavra aprendida, foi o corpo que aprendeu a se expressar, se defender. Antes de qualquer conceito de perigo,foi ele que sentiu o risco, o olhar atravessado, o frio na barriga denunciando o medo, a ameaça silenciosa que se apresentou como um arrepio na nuca. O corpo registra tudo, ele lembra do que a mente tenta esquecer.
Este corpo que habitamos, durante toda nossa jornada na vida, registra cada história vivida, mesmo aquelas que não foram selecionadas para fazer parte do nosso acervo. Todos os medos não elaborados, desejos interrompidos, palavras que não foram faladas, desconfortos não assumidos, tudo foi registrado. A memória não fica só no cérebro, fica em cada célula do nosso corpo. A mente esquece para sobreviver mas, o corpo, não. Ele lembra. E ele fala através de sintomas.
O sintoma corporal nunca é apenas físico. É a ponta de um iceberg de significados inconscientes que não encontraram outra via de expressão a não ser o corpo. Uma tentativa desesperada do organismo de dar conta de uma carga psíquica insuportável, fixando-a em um órgão, em um sistema.
O corpo, mais uma vez, tenta resolver o que a mente não pode elaborar. Mas, a cura apenas começa quando paramos de analisar apenas os pensamentos e começamos a escutar essa linguagem muda.
"O que esse nó na garganta está querendo dizer?"
"O que esse frio na barriga está tentando esconder?"
"De quem / o que estou tentando me esconder através deste sono excessivo?"
"O que eu preciso expressar verbalmente e não consigo? Me fazendo comer excessivamente na tentativa de engolir junto com a comida aquelas palavras que eu gostaria de colocar para fora?"
É um trabalho de tradução que leva tempo e exige paciência. De voltar a ouvir a linguagem que foi silenciada na tentativa de se proteger. Só é preciso coragem para sentar com ele e ouvir.
Nenhum corpo é neutro. Todo corpo é atravessado por normas, expectativas e controles. O corpo homoafetivo, em especial, aprendeu cedo que existir plenamente poderia custar caro. Por isso, desenvolvemos uma inteligência corporal de sobrevivência: músculos sempre alertas, respiração curta, gestos minuciosamente medidos, o prazer contido, o timbre de voz sempre controlado.
Não estou dizendo que esse corpo está errado por ter assumido esta forma de ser no mundo. Ele fez o que foi possível para proteger você com as ferramentas que haviam disponíveis naquele momento. O problema começou quando essa estratégia de sobrevivência se tornou o modo permanente de existir, mantendo o corpo em estado de defesa contínuo mesmo quando o perigo já passou.
O corpo é político porque ele desafia normas apenas por existir. É afetivo porque sente antes de explicar. É através dele que o Eros se expressa, e é também nele que a repressão deixa marcas visíveis e invisíveis.
Libertar o corpo não significa expô-lo sem limites. Significa escutá-lo. Significa permitir movimento onde há rigidez, respiração onde há contenção, prazer onde antes havia apenas controle. Um corpo mais livre não é um corpo perfeito. É um corpo habitado.
Quando você recupera a relação com seu corpo, percebe que algo muda no seu modo de estar no mundo, na sua dinâmica de relacionamento com o outro e principalmente consigo. A postura se transforma, os olhos perdem o medo de olhar, o desejo encontra lugar de expressão e gradativamente o corpo deixa de ser um lugar de vergonha e passa a ser território de empoderamento.
Fazer as pazes com o próprio corpo é um processo delicado, que exige escuta, sensibilidade e tempo.
Jesus Gomes
2 meses atrás
Porquê falar sobre o Eros?
Vivemos um momento de muita exposição e, paradoxalmente, de pouco espaço para a expressão verdadeira do desejo. Para um homem homoafetivo, essa contradiçã
Vivemos um momento de muita exposição e, paradoxalmente, de pouco espaço para a expressão verdadeira do desejo. Para um homem homoafetivo, essa contradição costuma ser ainda mais intensa. Desde cedo, somos forçados a aprender vigiar o nosso próprio corpo; a regular as demonstrações de afeto; a esconder impulsos e a negociar a própria verdade; a própria liberdade. Para fazer parte, para pertencer, caber nos moldes sociais estreitos que escolheram para nós.
Eu também escutei e ainda escuto algumas daquelas vozes que repreendiam, denunciavam minhas “supostas falha comportamentais”. Aquelas vozes carregadas de recalque que mandavam “falar grosso”, “andar como macho”, “engolir o choro”, e tantas outras agressões que você sabe quais…
E o corpo, esse território de memória, é o primeiro a aprender a linguagem da vigilância. Pouco a pouco ele aprende a retirar a vida dos gestos. A mão que para no ar antes de tocar. O olhar que se desvia do olhar do outro antes do encontro. O impulso do quadril que é contido, reprimido, transformado em uma tensão crônica na lombar. O corpo, que antes era uma lugar de descobertas, se torna uma fortaleza, não de força, mas de medo. Uma armadura invisível construída para proteger contra o julgamento que já foi internalizado, mas que na verdade é uma prisão.
Essa "negociação da própria verdade" não é uma escolha. É uma tentativa de sobrevivência em um ambiente hostil que ameaça a existência. E o preço é se tornar um homem fragmentado, que se divide entre o que é permitido sentir e o que realmente se sente. O que é permitido expressar e o que pulsa internamente, gritando para ser expresso. E o desejo é uma corrente de vida no corpo. Uma energia que pede movimento. Quando você aprende a regulá-lo, a escondê-lo, a negociá-lo, você não está apenas escondendo uma preferência. Você está interrompendo um fluxo vital. Está dizendo ao seu próprio sistema nervoso: "A sua verdade é perigosa. Apague-se!"
Todo esse movimento de performar o “macho” que o meio espera que você seja, de se adaptar aos moldes, de silenciar os próprios desejos, por alguns instantes pode até trazer uma certa sensação de “ser o homem brilhante”, mas apenas na vitrine. Porque na intimidade a realidade é completamente oposta; um homem com um vazio profundo, sem vida, que perdeu a autenticidade. O pertencimento que foi buscado e aparentemente conquistado ao custo dessa negociação é uma ficção. A grande verdade é que você não pertence. Eu não pertenço. Apenas somos tolerados na medida do nosso bom comportamento aprendido a uma preço alto. E essa é a ferida narcísica mais profunda: a de ter que comprar, com a própria vida, um lugar à mesa.
Falar do Eros é revistar o processo de “sair do armário”, “sair da caixa”, “despir-se da armadura”. É reaprender a escutar o corpo e enxerga-lo não como um traidor que pode envergonhá-lo, mas como o aliado fiel, o guardião da sua verdade mais primária. Falar do Eros, sem culpa, é dar espaço para ressignifica-lo como impulso para a vida; para a sua vida que espera para ser experimentada com liberdade, criatividade, autenticidade e espontaneidade. É um caminho de redescoberta e reconquista do corpo. De habitar, de fato, a própria pele. Sem negociação. Porque o verdadeiro pertencimento começa quando você pertence, primeiro e acima de tudo, a si mesmo.
2 meses atrás
O que o prazer toca em você?
Quando o prazer se manifesta em você, o que realmente está sendo tocado? O corpo? A alma? Ou uma ferida antiga, que ainda pede para ser curada? Muitas vezes,
Quando o prazer se manifesta em você, o que realmente está sendo tocado? O corpo? A alma? Ou uma ferida antiga, que ainda pede para ser curada?
Muitas vezes, o prazer não é apenas prazer. É uma memória que o corpo guarda,
um lugar onde o desejo e a dor se encontram. Se você observar com atenção, vai perceber:
nem todo arrepio é prazer, às vezes é o corpo lembrando algo que não pôde viver em paz.
E o corpo nos convida a escutar esses sinais. Não para negar o prazer, mas para vivencia-lo com consciência. Porque só quando sentimos com verdade, o prazer deixa de ser fuga e se torna cura.
Jesus Gomes
5 meses atrás
Você quer ser visto ou desejado?
Às vezes, o que chamamos de intimidade não passa de uma tentativa silenciosa de existir no olhar do outro. Porque ser desejado é fácil, mas ser visto exige
Às vezes, o que chamamos de intimidade não passa de uma tentativa silenciosa de existir no olhar do outro. Porque ser desejado é fácil, mas ser visto exige coragem.
O desejo pode ser dirigido a qualquer corpo. Ele é rápido, quente, impulsivo. O desejo nos dá a sensação de valor imediato, como se por alguns segundos o validasse a nossa importância
Mas ser visto é outra coisa!
É quando o outro não se relaciona apenas com o nosso sexo, o nosso corpo, ou a nossa performance na cama. Aqui, a troca está em outro nível, com mais entrega e consciência. O outro percebe nossas tensões, nossos medos escondidos, nossas pausas, nossa sensibilidade, e transita através de nossas camadas respeitando nossa vulnerabilidade. E é justamente aí que a gente recua e se fecha. Porque ser visto significa ser tocado onde a armadura que vestimos a vida toda não protege. Significa permitir que o outro encontre a parte que até nós mesmos tentamos ignorar; a parte que deseja, mas também a que teme; a parte que se entrega, mas também a que foge.
Quando você estiver em um momento íntimo com alguém, se pergunte: “Eu estou aqui para ser visto ou para ser desejado?”
Ser desejado alimenta o ego. Ser visto nutre o ser. E apenas quando você se permite ser visto por inteiro, sem máscaras, seu corpo relaxa, sua energia flui, seu erotismo se torna presença e não estratégia para corresponder.
No fundo o caminho do Eros nos conduz ao encontro com a nossa pulsão de vida; nossa potência criativa.
Quando você se permite ser visto, inteiro, vulnerável; o erotismo deixa de ser sobrevivênciae se torna potência de verdade…